Este é um espaço predominantemente pessoal e familiar, mas não se limita a esta categoria. Tem como proposta fundamental apresentar pensamentos, relatar experiências, propor discussões, criar novas amizades e consolidar as já existentes.

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terça-feira, 26 de junho de 2012

Língua, essa danada.




Vitórias conquistadas são, evidentemente, boas de serem lembradas, divulgadas e compartilhadas, seja como forma pedagógica de exemplificar a superação dos obstáculos em busca dos objetivos pessoais, seja como expressão de liberdade, felicidade ou mera liberalidade. Contudo, todos nós, em algum momento, precisamos olhar para o espelho e lembrar quem somos realmente. Isto definitivamente não é um exercício simples e frequentemente praticado, pois requer uma qualidade escassa, a blindagem emocional, já que é muito dificil encararmos os próprios fracassos. Neste sentido, eventualmente, costumo falar dos meus insucessos, seja durante conversa informal com meus alunos, numa rodada com amigos ou mesmo compartilhando publicamente na internet (blog, etc.). Agindo assim, acredito que isso me ajude a manter os pés nos chão. Seja como for, a opção em viver discretamente ou escrachadamente traz riscos de ataques e maledicências ou elogios e admirações, consequências diretas da natureza humana. Sendo assim, o melhor a fazer é manter-se sereno e alerta. Sereno para não adoecer gratuitamente, alerta para representar judicialmente contra o infeliz difamador. Para aqueles que se identificam com a mensagem, fica a sabedoria do filósofo Platão, que já divagava sobre o assunto: “Calarei os maldizentes continuando a viver bem; eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência”, e a pop star Madonna: “Sobre mim falem bem ou mal, mas falem”.

domingo, 10 de junho de 2012

Lições do Mestre


Continuando a série “passado com os amigos”, lembrei de uma aula de neuroanatomia do professor Dr. Eduardo Leitão no ICB. A turma estava reunida em círculo em torno das peças, como de práxis. Dizia o professor: “observem a fissura longitudinal separando os dois hemisférios cerebrais; também vemos aqui os sulcos lateral e central, paralelo aos giros pré-central e pós-central”. Em dado momento, uma colega interrompe a explanação, incidindo seu dedo indicador sobre a peça anatômica e indagando qual seria o nome daquele sulco cujo professor havia ignorado. O professor olhou para nós e disse: o nome deste sulco turma, chama-se brutalidade humana, em seguida, deu gostosa gargalhada. Levamos uns segundos até entender a piada. O sulco em questão não era uma marca natural do cérebro, era tão somente um sutil dano provocado pela serra elétrica no momento do corte da calota craniana, por parte dos preparadores das peças. Este era o professor Leitão, grande mestre.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Capturando luz

 


E então os sensores eletrônicos chegaram até nossas mãos substituindo os filmes de 35 mm como o fogo roubado dos deuses. Esse presente precioso permitiu com que nós, entusiastas mortais, trouxéssemos ao mundo novas concepções, destruindo e reconstruindo paradigmas, minando vaidades e ao mesmo tempo incomodando e alegrando muita gente. Neste contexto, pergunto-me qual seria meu objetivo? Em primeiro lugar busco meu prazer incondicional. Portanto, capturo luz para mim mesmo como uma terapia do sossego. Aquele lápso de tempo entre o enquadramento da imagem e o pressionar do obturador é sem dúvida uma experiência mística cujo os olhos de Deus pegamos emprestado. Neste exercício de reflexão e satisfação pessoal, definitivamente não há pretensões de lucro ou aspirações de destaque no meio artístico. Em segundo lugar vem o desejo de mostrar as pessoas queridas, amigos e familiares o quanto o mundo pode ser mais interessante do que supomos. Seja como for, fotografar requer concentração, inspiração, desejo, atenção aos detalhes finos, percepção das coisas simples a partir de um olhar filosófico do Universo o qual pertencemos. Fotografar é, sobretudo, uma brincadeira divertida e contagiante. Em fim, fotografar é poesia, é ter algo a dizer e dizê-lo, com humildade e resiliência. Um brinde aos sensores eletrônicos.



sábado, 2 de junho de 2012

Seu Tuna e as coisas de moleque

Ele era chamado de Tuna, um senhor beirando os oitenta anos, cuja marcha se caracterizava por um acentuado encurvamento do corpo para diante, mantendo a cabeça suspensa a frente, com os braços para trás em equilíbrio. Passos lentos e vacilantes, aquele senhor de origem interiorana insistia em realizar um breve percurso da sua residência até a mercearia da esquina. Diziam que ele era pescador, mas nem seu sobrinho Getulio sabia ao certo. Veio morar com sua irmã, dona Dica.
Toda tarde sentava-se num banquinho simples de madeira em frente a sua casa. O velho era lúcido, apesar das marcas do tempo. Seu Tuna não perdia um lance. Com um olhar atento, soltava uma rouca e breve gargalhada ao avistar um caminhar feminino.
Mas isso era quando estava sentado, porque quando estava perambulando e em seu caminho viesse uma mulher em sua direção, corrigia sua postura corcunda, posicionando seus braços para diante a fim de permanecer em posição ereta até onde conseguia alcançar. Em seguida ouvia-se a típica gargalhada. Esse era seu Tuna, o velho Tuna.
Certa vez seu sobrinho com muita dificuldade tentava soltar sua mão direita, firmemente segura no gradil do muro da casa. Seu Tuna estava paralisado a meio caminho entre ficar em pé e sentado em seu banquinho.
Aconteceu que ele perdera o equilíbrio ao tentar sentar-se e comedo de cair, agarrou-se por reflexo e ali permaneceu gritando por socorro: “Ajuda Dica, puta merda... Dica, Dica!”.
A cena não tem nada de engraçado, é triste, mas ainda assim virou piada lembrada até hoje. Não poderia ser diferente, na época éramos jovens e tolos para conter a risada diante de nosso amigo ajudando seu tio que em alto e bom tom esbaforia impropérios aos quatro ventos. Hoje quando reencontro aqueles velhos amigos, nosso cumprimento inicial é invariavelmente: “fale Dicaaaaa!”

Quadrilhas juninas



Noite timidamente estrelada, gradativamente aumentava a animada concentração. Nossa cerimonialista Eliana, sempre gentil e cativante, coordenava a formação inicial de mais um ensaio. Inevitavelmente, alguns púberes, motivados por seus hormônios, trocavam olhares apaixonados sem pudores, outros simplesmente brincavam, gargalhavam ou corriam fortuitamente. Mas todos estávamos ali com o desejo sincero de dançar quadrilha. Quando a música começava e os primeiros passos se faziam presente, uma atmosfera contagiante tomava conta de nossas respirações e transpirações, permitindo com que aquela típica dança, agisse como uma poderosa força de atração coletiva, mantendo-nos coesos e indiferentes ao avançar das horas. Era a magia das festas juninas na Rua dos Mundurucus nos idos de 1985, com direito a fogueira do seu João (pai do Junior), mingau da Dona Sabá, simpatia de Dona Margarida, dona Maria Luíza, dona Celeste, Dona Marília, e tantas outras. Estou certo de que aqueles que como eu, experimentaram essa manifestação social, não deixam de sentir, mesmo que discretamente, um embargo na garganta e um "cisco no olho" ao ouvir “Fim de festa” de Luiz Gonzaga. Então: Balancê!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Belém que no Pará parou.

09 de maio de 2012 não teve água, faltou energia e os ônibus desapareceram. Esquinas congestionadas sob um trânsito caótico testava a paciência dos transeuntes. Não raro pessoas transbordavam pelas janelas dos transportes coletivos na exata medida da disposição dos mototaxistas que entre as faixas se lançavam feito flechas. A Belém que parou fingiu-se de morta. Por volta das 16h30minh duas menininhas mal trajadas, uma pretinha, outra branquinha, bonitinhas e famintas aproximaram-se, estenderam as mãozinhas e, com os olhinhos tristes, quase lacrimejantes, perguntaram: o senhor quer bombons? Rapidamente ambas sorriram agarrando aquilo que pretendiam e, com agilidade, desapareceram entre os veículos. Eram apenas menininhas, florezinhas de um jardim esquecido, eram a Belém agonizante no compasso do descaso.

domingo, 6 de maio de 2012

Ah Humanos!






Sites de relacionamentos sempre possuem o que podemos classificar de "lado obscuro da força", aquele que o torna um muro das lamentações, um manual de receitas de sucesso e felicidade, um compêndio de intrigas, fofocas, piadas e deboches. Também tem espaço para lições de moral, promoção pessoal, exibicionismos, vernissagens e teses da verdade. Vez  por outra vejo no facebook a manifestação dos críticos de tendências, cientistas, historiadores, humoristas, comentadores esportivos, mocinhas virgens, turistas e alienígenas de outras galáxias.

Temos a presença marcante dos bonzinhos, dos eticamente corretos, dos apaixonados, dos nostálgicos, dos escritores, dos salvadores da pátria,  dos queridinhos de Deus e também não poderia faltar o time que compõem a palmatória do mundo.

Como se não bastasse, têm ainda um grupo com necessidades especiais de atenção, que de posse de um celular, alimentam a curiosidade dos mais incautos com seus relatórios curtos sobre seu cotidiana do tipo: fui ali; fui aculá; almocei isto; jantei aquilo, saí com fulano, bebi com sicrano etc. etc.

Da mesma forma, compondo o equilíbrio destes sites, temos o “lado brilhante da força”, aquele que possibilita reencontrarmos antigas amizades, estabelecer laços de carinho, estreitar contatos familiares, divulgar informações de caráter utilitário com benefícios sociais diversos, etc. Nós todos transitamos na dimensão dicotômica destas maravilhosas ferramentas de entretenimento, portanto, fazemos parte de tudo isso; lógico, é típico do ser humano, porque seria diferente? Foi assim, é assim e sempre será, disse “o profeta”.