Este é um espaço predominantemente pessoal e familiar, mas não se limita a esta categoria. Tem como proposta fundamental apresentar pensamentos, relatar experiências, propor discussões, criar novas amizades e consolidar as já existentes.

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Capturando luz

 


E então os sensores eletrônicos chegaram até nossas mãos substituindo os filmes de 35 mm como o fogo roubado dos deuses. Esse presente precioso permitiu com que nós, entusiastas mortais, trouxéssemos ao mundo novas concepções, destruindo e reconstruindo paradigmas, minando vaidades e ao mesmo tempo incomodando e alegrando muita gente. Neste contexto, pergunto-me qual seria meu objetivo? Em primeiro lugar busco meu prazer incondicional. Portanto, capturo luz para mim mesmo como uma terapia do sossego. Aquele lápso de tempo entre o enquadramento da imagem e o pressionar do obturador é sem dúvida uma experiência mística cujo os olhos de Deus pegamos emprestado. Neste exercício de reflexão e satisfação pessoal, definitivamente não há pretensões de lucro ou aspirações de destaque no meio artístico. Em segundo lugar vem o desejo de mostrar as pessoas queridas, amigos e familiares o quanto o mundo pode ser mais interessante do que supomos. Seja como for, fotografar requer concentração, inspiração, desejo, atenção aos detalhes finos, percepção das coisas simples a partir de um olhar filosófico do Universo o qual pertencemos. Fotografar é, sobretudo, uma brincadeira divertida e contagiante. Em fim, fotografar é poesia, é ter algo a dizer e dizê-lo, com humildade e resiliência. Um brinde aos sensores eletrônicos.



sábado, 2 de junho de 2012

Seu Tuna e as coisas de moleque

Ele era chamado de Tuna, um senhor beirando os oitenta anos, cuja marcha se caracterizava por um acentuado encurvamento do corpo para diante, mantendo a cabeça suspensa a frente, com os braços para trás em equilíbrio. Passos lentos e vacilantes, aquele senhor de origem interiorana insistia em realizar um breve percurso da sua residência até a mercearia da esquina. Diziam que ele era pescador, mas nem seu sobrinho Getulio sabia ao certo. Veio morar com sua irmã, dona Dica.
Toda tarde sentava-se num banquinho simples de madeira em frente a sua casa. O velho era lúcido, apesar das marcas do tempo. Seu Tuna não perdia um lance. Com um olhar atento, soltava uma rouca e breve gargalhada ao avistar um caminhar feminino.
Mas isso era quando estava sentado, porque quando estava perambulando e em seu caminho viesse uma mulher em sua direção, corrigia sua postura corcunda, posicionando seus braços para diante a fim de permanecer em posição ereta até onde conseguia alcançar. Em seguida ouvia-se a típica gargalhada. Esse era seu Tuna, o velho Tuna.
Certa vez seu sobrinho com muita dificuldade tentava soltar sua mão direita, firmemente segura no gradil do muro da casa. Seu Tuna estava paralisado a meio caminho entre ficar em pé e sentado em seu banquinho.
Aconteceu que ele perdera o equilíbrio ao tentar sentar-se e comedo de cair, agarrou-se por reflexo e ali permaneceu gritando por socorro: “Ajuda Dica, puta merda... Dica, Dica!”.
A cena não tem nada de engraçado, é triste, mas ainda assim virou piada lembrada até hoje. Não poderia ser diferente, na época éramos jovens e tolos para conter a risada diante de nosso amigo ajudando seu tio que em alto e bom tom esbaforia impropérios aos quatro ventos. Hoje quando reencontro aqueles velhos amigos, nosso cumprimento inicial é invariavelmente: “fale Dicaaaaa!”

Quadrilhas juninas



Noite timidamente estrelada, gradativamente aumentava a animada concentração. Nossa cerimonialista Eliana, sempre gentil e cativante, coordenava a formação inicial de mais um ensaio. Inevitavelmente, alguns púberes, motivados por seus hormônios, trocavam olhares apaixonados sem pudores, outros simplesmente brincavam, gargalhavam ou corriam fortuitamente. Mas todos estávamos ali com o desejo sincero de dançar quadrilha. Quando a música começava e os primeiros passos se faziam presente, uma atmosfera contagiante tomava conta de nossas respirações e transpirações, permitindo com que aquela típica dança, agisse como uma poderosa força de atração coletiva, mantendo-nos coesos e indiferentes ao avançar das horas. Era a magia das festas juninas na Rua dos Mundurucus nos idos de 1985, com direito a fogueira do seu João (pai do Junior), mingau da Dona Sabá, simpatia de Dona Margarida, dona Maria Luíza, dona Celeste, Dona Marília, e tantas outras. Estou certo de que aqueles que como eu, experimentaram essa manifestação social, não deixam de sentir, mesmo que discretamente, um embargo na garganta e um "cisco no olho" ao ouvir “Fim de festa” de Luiz Gonzaga. Então: Balancê!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Belém que no Pará parou.

09 de maio de 2012 não teve água, faltou energia e os ônibus desapareceram. Esquinas congestionadas sob um trânsito caótico testava a paciência dos transeuntes. Não raro pessoas transbordavam pelas janelas dos transportes coletivos na exata medida da disposição dos mototaxistas que entre as faixas se lançavam feito flechas. A Belém que parou fingiu-se de morta. Por volta das 16h30minh duas menininhas mal trajadas, uma pretinha, outra branquinha, bonitinhas e famintas aproximaram-se, estenderam as mãozinhas e, com os olhinhos tristes, quase lacrimejantes, perguntaram: o senhor quer bombons? Rapidamente ambas sorriram agarrando aquilo que pretendiam e, com agilidade, desapareceram entre os veículos. Eram apenas menininhas, florezinhas de um jardim esquecido, eram a Belém agonizante no compasso do descaso.

domingo, 6 de maio de 2012

Ah Humanos!






Sites de relacionamentos sempre possuem o que podemos classificar de "lado obscuro da força", aquele que o torna um muro das lamentações, um manual de receitas de sucesso e felicidade, um compêndio de intrigas, fofocas, piadas e deboches. Também tem espaço para lições de moral, promoção pessoal, exibicionismos, vernissagens e teses da verdade. Vez  por outra vejo no facebook a manifestação dos críticos de tendências, cientistas, historiadores, humoristas, comentadores esportivos, mocinhas virgens, turistas e alienígenas de outras galáxias.

Temos a presença marcante dos bonzinhos, dos eticamente corretos, dos apaixonados, dos nostálgicos, dos escritores, dos salvadores da pátria,  dos queridinhos de Deus e também não poderia faltar o time que compõem a palmatória do mundo.

Como se não bastasse, têm ainda um grupo com necessidades especiais de atenção, que de posse de um celular, alimentam a curiosidade dos mais incautos com seus relatórios curtos sobre seu cotidiana do tipo: fui ali; fui aculá; almocei isto; jantei aquilo, saí com fulano, bebi com sicrano etc. etc.

Da mesma forma, compondo o equilíbrio destes sites, temos o “lado brilhante da força”, aquele que possibilita reencontrarmos antigas amizades, estabelecer laços de carinho, estreitar contatos familiares, divulgar informações de caráter utilitário com benefícios sociais diversos, etc. Nós todos transitamos na dimensão dicotômica destas maravilhosas ferramentas de entretenimento, portanto, fazemos parte de tudo isso; lógico, é típico do ser humano, porque seria diferente? Foi assim, é assim e sempre será, disse “o profeta”.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Anatomia tão Humana

Ainda no primeiro ano de Medicina, lá estava eu enfiado no laboratório de anatomia da UFPA como de práxis. Pelas janelas do laboratório a luz suave do fim da tarde iluminava o ambiente contrastando com a fraca luz artificial das iluminarias. Entre o folhear das páginas do “Sobotta” (tradicional atlas de Anatomia humana), as horas passavam em meio aquele mórbido silêncio. Deitado em decúbito dorsal sobre a mesa de dissecção, um gélido compatriota expunha todo o esplendor de seus órgãos à prospecção do estudo. Sim, naquele instante, flertava com um ser humano falecido e que havia emprestado seu corpo para estudos de anatomia. Vem isto a dizer que não se tratava de um cadáver, posto que este termo vem do Latim carna data vermis, que significa “carne dada aos vermes”, e obviamente que num laboratório de anatomia, isto não estaria acontecendo.
Entre a manipulação de um órgão e outro, pus-me a refletir sobre o significado daquele ato. Fiquei imaginando quantas coisas bonitas aqueles olhos teriam contemplado? Que ofício teria praticado aquelas mãos? Por certo, estava diante não apenas de um amontoado de tecidos e órgãos, mas sobretudo, de um ser humano que em vida, certamente sorriu, chorou e amou.
De repente minhas elucubrações foram interrompidas por uma voz grave que lenta e pausadamente começou a falar: “caro amigo de muitas horas, não tive as mesmas oportunidades que tivestes. Fui um indigente na vida, discriminado, odiado, esquecido e abandonado. Por toda a minha vida esperei um ato de carinho e acolhida, mas nunca os encontrei.” E assim continuava quela voz...
“ - Ao morrer, permaneci algum tempo num freezer a espera de reconhecimento e gratidão, seja de meus familiares ou conhecidos, mas infelizmente isto nunca aconteceu. Jamais tive um funeral, por mais simples que fosse.
Por sorte fui acolhido por esta honrosa Universidade que me deu guarida permanente em companhia de mentes brilhantes e sedentas de conhecimento.
Nunca havia entrado numa Universidade em vida como vim a fazer no post mortem. Desta forma, sinto-me gratificado em ver o brilho nos olhos daqueles que aqui adentram a manusear-me na esperança de salvar vidas. Não obstante, quão poucos dentre vós se compraz a refletir sobre o significado de seus “instrumentos de estudo”.
Não raro, sou tratado com profunda indiferença, vitima de brincadeiras jocosas e humilhantes que me entristecem e me envergonham. Que insensatez atroz!
Por fim queria apenas agradecer a oportunidade de ajudar e colaborar. Sou grato principalmente àqueles que me respeitam enquanto ser humano. Sim, porque é isso que fui, é isso que eu sou e é isso que continuarei a ser enquanto existir algo em mim, que seja útil a vós“
Naturalmente que tudo não passou de uma cáustica imaginação, motivada pela “dor de consciência” e inspirada nos escritos de Michel Palheta, o qual também tem manifestado igual preocupação ante a referida questão. Isso indica-nos que a falta de sensibilidade da comunidade acadêmica em geral, não faz parte apenas de eventos circunstanciais, mas correspondem a fatos estruturais, presentes em muitas instituições de ensino superior com áreas de saúde.
Não podemos nem devemos permitir que pela nossa indiferença sejamos levados a praticar a trivialidade de um estudo destituído de reflexão e compaixão. Do contrário, converteremos o logro de nosso aprendizado em objeto de ação discriminatória e fugaz. Daí porque gostaria de ver pautado nesta questão, a adesão de todos aqueles que se dedicam ao estudo de anatomia.
Em passant, imprescindível se torna, pois, que, antes de nos arvoremos no alto de nossa sapiência, façamos uma reflexão sincera sobre a ética profissional de nossos atos. Sejamos mais humildes e mais humanos, respeitando à memória dos que já se foram. Estes mais do que nunca, se dignificam ao prestarem relevantes serviços à sociedade ensinando-nos sobre nós mesmos.
Infelizmente ainda vivemos sob o prisma de que devem ser tratados igualmente os iguais, e desigualmente os desiguais, na exata medida de suas desigualdades, e isto a mim parece o reflexo exato da irascível anatomia tão humana do orgulho e da vaidade. Contudo, são merecedores de encômios todos aqueles que se lançam com o coração sincero, com amor, com respeito e dedicação, ao estudo do corpo humano, cujos segredos a natureza tão generosamente nos prodigalizou.

                                               (O Liberal, 11-12-02)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dicas de como fotografar como um profissional (9)

A seguir, comento alguns aspectos gerais que podem ajudar no desenvolvimento de sua prática fotográfica, citando como proceder tecnicamente de acordo com algumas situações específicas que por ventura venham a se apresentar. As dicas foram extraídas de alguns livros sobre fotografia e portanto, são dicas de gente que tem estrada pela frente, fotógrafos muito experientes. Eu mesmo testei algumas delas como exercício e de fato, minhas fotos melhoraram consideravelmente, pelo menos na opinião da minha namorada (rsrs).
Pois bem, em fotos de viagens é interessante incluir as pessoas do lugar, não tire fotos de multidões; crianças e velhos são mais adequados e tornam suas fotos mais originais, não esquecendo de remover durante o enquadramento, aqueles elementos que desviam a atenção, ou seja, procure compor em fundo simples, sem muitos detalhes. Dê preferência a aberturas grandes do diafragma, para que você obtenha profundidade de campo curta, incidindo exatamente o foco sobre o assunto desejado.
Geralmente para retratos os especialistas recomendam f.8 ou f.2.8 Tente captar a personalidade da pessoa fotografada. Lembre-se que o mais importante em retratos não é a pessoa e sim a luz, é eu sei, parece um contrasenso, mas tente mudar a preocupação e verá que vai dar certo. No close up os olhos devem ficar preferencialmente localizados no terço superior do enquadramento, assim você transmite harmonia.
Se fotografar flores, escolha à hora mágica ou os dias nublados, pois estes oferecem a melhor luz. Também podemos obter resultados satisfatórios se fotografar após a chuva, pois as gotículas de água presentes nas flores geram imagens encantadoras. Já no caso de fotos de paisagens, o ideal é utilizar um tripé e fotografar na hora mágica (a hora mágica é aquela no final do dia, ao entardecer, dura apenas alguns minutos, então, seja rápido), com prioridade de abertura (AV). O uso de filtro degrade de densidade neutra ajuda muito no controle da exposição entre o primeiro e os demais planos durante a composição. O tripé se justifica porque ao utilizar uma abertura pequena para melhor nitidez e profundidade e, ISO baixo para reduzir o ruído, você vai precisar baixar a velocidade e, por conseguinte, a câmera não poderá ficar sobre suas mãos, caso contrário, a imagem não será como aquelas de revistas (rsrs). 
Ao contrário do que muitos imaginam, os especialistas sugerem fazer fotos panorâmicas capturando toda a seqüência da cena (multiplas fotos) na posição vertical e não na horizontal, para posteriormente, uni-la durante a pós-produção a partir dos programas de edição. Fica uma maravilha. 
Vida selvagem: mire sempre nos olhos, mas não atire, clic apenas (rsrs). Quero dizer que o foco deve estar sempre... sempre sobre os olhos do animal, o resto não interessa (rsrs). Cuidado para não "enjaular o animal", dê espaço para ele, sobretudo diante de seu olhar. No esporte use altas velocidades para congelar a ação do atleta ou, se preferir, use baixas velocidades para mostrar o movimento da ação produzindo aquelas típicas fotos borradas (que eu particularmente não gosto), mas nesse último caso, é preferível usar um monopé para obter resultados profissionais.
Nas cenas urbanas procure objetos com cores vibrantes e com alto contraste. Não vá ao todo, vá aos detalhes usando geralmente f.11 para obter maior profundidade de campo. Evite poluição visual, procure a simplicidade, procure mostre o movimento e a vida da cidade, sobretudo a noite. E finalmente, as duas últimas superdicas dos especialistas: Se não usar um tripé, o segredo para conseguir fotos nítidas está em usar velocidade igual ou acima da distância focal máxima da objetiva. Quanto a melhor abertura,  geralmente ela está a dois f-stops completos abaixo da abertura máxima da objetiva. ISO, evite sempre que possível ISO elevado, tente ajustar os parâmetros de velocidade, abertura e exosição de modo a poder utilizar o menor valor de ISO possível, assim você se livra do ruído.

Entre subexpor e superexpor a foto, há controvérsias, eu particularmente, prefiro superexpor a fotografia, porque depois é mais facil a correção (o escurecimento). Se proceder do contrário, entretanto, você vai ganhar ruído aumentando assim a mão de obra na pós produção, pois além da correção da exposição, ainda terá que remover ou reduzir o tal ruído. Ruídos são equelas irritantes granulações que surgem geralmente bem visível nas áreas escuras da fotografia, há quem goste, aliás, em algumas situações artísticas o ruído é muito bem vindo obrigado.

 Em matéria de fotografia, existem regras, mas elas podem e devem ser quebradas de vez emquando, desde que essa rebeldia tenha uma coerencia interna, obedecendo um padrão aureo de harmonia visual estabelecido naturalmente pela própria natureza fisiológica de nosso olhar. Até a próxima.